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terça-feira, 28 de janeiro de 2014

A sobriedade em “Abraços Partidos”

Em 2009 chegava nas telas dos cinemas o mais novo filme do diretor espanhol Pedro Almodóvar, Abraços Partidos, filme tomado por diversos flashblacks, misturando o presente de 2009 e o passado dos anos de 1992 e 1994.

A personagem protagonista Mateo Blanco/Harry Caine nos conta, já nos minutos iniciais, um pouco do seu passado: nasceu como Mateo Blanco, um diretor de cinema, mas desde criança queria ser alguém além dele mesmo, queria poder ser outro e viver como outro, o que o fez criar o pseudônimo Harry Caine, o qual utilizava para assinar seus livros e roteiros utilizados em seus filmes. Entretanto, por circunstancia não ditas em princípio, Mateo precisará abandonar de vez seu nome verdadeiro e viver da sua personalidade criada, tendo que lidar com a surpresa de Caine agora ser um escritor e roteirista cego.

Assim a película se encaminha até o momento em que Caine é procurado por um fantasma do seu passado, fazendo com que, aos poucos e a partir de seu olhar, ele conte ao seu ajudante e filho de sua agente, Judit Garcia, a sua tumultuada história de amor e paixão por Lena, personagem vivida por Penélope Cruz.


As vidas das duas personagens se cruzam em 1994, no momento em que Lena vai até o escritório de Mateo para fazer um teste para participar do primeiro filme de comédia do diretor, “Garotas e Malas”. Em princípio, o marido de Lena, o milionário empresário Ernesto Martel, mostra-se contra o desejo da mulher em se tornar atriz, mas termina por aceitar e até mesmo ajuda a financiar o filme, manobra extremamente fundamental para o decorrer do enredo, afinal Ernesto é uma personagem baixa e ciumenta, não medindo esforços para saber cada passo de Lena dentro do estúdio.

As cores tão presentes nos filmes de Almodóvar, que transmitem as tensões e os sentimentos vividos pelas personagens, ainda possuem grande espaço na trama de “Abraços Partidos”, mas o melodrama, característica marcante dos filmes do cineasta espanhol, é tratado aqui de forma mais sóbria e pautada no real, o que para muitos críticos foi um retrocesso artístico na carreira do diretor e para tantos outros uma amostra de amadurecimento intelectual.



Também vale a ressalva para a metalinguagem explorada na narrativa fílmica: temos a história de um diretor apaixonado pela musa de seu filme. Sabemos, obviamente, que Almodóvar possui um outro tipo de amor e admiração pela sua eterna musa Penélope Cruz. Além disso, há grandes referências aos filmes de comédia do diretor dentro do filme “Garotas e Malas”, é só lembrarmos das confusões e dramas vividos pelas mulheres em “Mulheres a beira de um ataque de nervos” ou de “Kika”.

No mais, o filme deve ser visto e apreciado como uma obra destoante do acervo de Almodóvar: é cruel, fria e real.

Por: Jéssica Fabrícia.


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