Para
dar o pontapé inicial ao blog, cada autor escolheu um filme que este considera
como sendo o melhor dos últimos cinco anos. Tendo uma fotografia magnífica, uma
filmagem fantástica e a melhor atuação de Antonio Banderas, meu filme escolhido
foi A pele que habito, baseado no
romance de Thierry Jonquet, Mygale (1995),
ou Tarántula (2005) de 2011, dirigido
por Pedro Almodóvar, rendendo a ele o “Globo de Ouro” em 2012 na categoria de
“Melhor filme estrangeiro”.
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| Antonio Banderas e Elena Anaya |
O filme
se inicia com a personagem de Elena Anaya, Vera Cruz, presa a um quarto,
praticando exaustivamente exercícios de yoga e recebendo sua comida por um
elevador. Seu contato com o mundo exterior dá-se somente por meio de um
interfone, podendo realizar seus pedidos à governanta da casa, Marília,
interpretada por Marisa Paredes. O local em que fica a casa nos é apresentado
como “El Cigarral”, sendo Robert Ledgard – Antonio Banderas – o dono deste
lugar encantador e luxuoso. Berto é médico e acadêmico, tendo uma clínica
própria no Cigarral, onde ele e sua equipe realizam cirurgias autônomas para
mudança de sexo – o que é apenas mostrado no filme por meio de dicas.
Logo
no começo da película, quando Berto está apresentando seu trabalho inovador à
comunidade científica, várias críticas lhe são dirigidas, uma vez que ele está
praticando experiências que envolvem transgênese em humanos – prática esta que
é veementemente proibida em todo o mundo. Logo em seguida descobrimos que seus
experimentos têm, por fim, criar um novo tipo de tecido humano muito mais
resistente, tendo Vera como sua cobaia. A estranha relação dos dois continua a
se desenrolar, sendo mostrado durante o filme que ela não se baseia somente na
relação descrita anteriormente, mas também de louvor. É como se Berto
apreciasse uma obra de arte, uma criação sua, nos momentos em que ele se tranca
em um cômodo ao lado do quarto de Vera e ali fica a admirá-la por meio de uma
tela gigantesca.
No
momento em que uma visita inesperada aparece, o filme começa a tomar corpo como
obra artística, pois é quando o filho de Marília, fantasiado esdruxulamente de
tigre para o baile de Carnaval, estupra Vera e revelações começam a tomar conta
do filme. Percebe-se, aqui, a fidelidade que a governanta da casa mantém com o
médico, uma vez que ela assiste de camarote à morte do próprio filho sem tomar
atitude alguma para deter o ato. Ela simplesmente se livra das evidências para
que a vida dos que ali vivem continue seguindo normalmente.
Tendo a prisioneira finalmente fora
de seu quarto devido às atitudes violentas que foram realizadas sobre ela, fica
evidente a relação do cárcere, o fechado, o subjugado, com as revelações
apresentadas. Enquanto Vera mantinha-se privada do mundo exterior, em seu
quarto, o filme toma seu rumo normal e nada nos é apresentado, apenas as
personagens e seus devidos papéis no filme, contudo, é quando esta entra em
contato com o lado exterior que o enredo começa a mostrar-se claro ao
espectador, pois é exatamente nesse momento que as mais importantes revelações
do filme são apresentadas ao espectador, estas que são a chave-mestra para
poder entender todo o resto do complexo enredo, principalmente, e acima de
tudo, o porquê daquela mulher estar confinada em um quarto dentro da própria
casa.
É partir dessas revelações que a
história entra em um segundo momento, que é quando o casal está dormindo e o
motivo do cárcere começa a ser contado sob duas perspectivas totalmente
diferentes: primeiramente a de Berto e depois a de Vera. Na primeira, mostra-se
o pseudo-estrupro que a filha do médico sofrera seis anos antes da história
narrada, ato que foi realizado pelo jovem Vicente, interpretado por Jan Cornet.
Na segunda, percebemos que o viés de Berto não passa de uma ilusão criada por
ele próprio, uma vez que o estupro de fato não aconteceu. Vicente apenas se
assustou com os gritos dados por Norma – filha do médico – enquanto tocava a
música que a garota cantava quando pequena no momento em que sua mãe se atirou
pela janela, cometendo suicídio. A partir de sua fissura por vingança, o jovem
é raptado por Berto e dá-se início a uma doentia busca pela imagem de sua
falecida esposa.
Neste segundo momento do filme
percebemos o embasamento nas obras clássicas de ficção científica, onde um
“cientista maluco” – assim chamado por críticos, inclusive, especializados em
cinema e literatura – cria um monstro a seu gosto, como é o caso de Frankstein, famosa obra literária que é
considerada como o primeiro romance de ficção científica, tendo várias
adaptações ao cinema e aos desenhos animados. Almodóvar recria brilhantemente a
imagem do “cientista maluco” das obras do século XVIII e XIX, sendo visível a
construção de uma personagem com caráter egocêntrico, ambicioso e arrogante,
colocando suas experiências científicas acima de qualquer Comitê de Ética, além
de não poupar esforços para concluir seu projeto mais fascinante.
No
filme são apresentados todos os estágios da “criação” de Berto, passando pela
vaginoplastia até os tecidos modeladores que são colocados no corpo de Vicente
– agora chamado de Vera – e a máscara, que provavelmente foi colocada nele
devido a uma série de cirurgias plásticas no rosto. Até que, por fim, chega-se
ao estágio final de sua obra: a encantadora Vera, que assemelha-se fortemente à
imagem de sua mulher, observação incessantemente repetida por Marília e seu
filho.
E no corpo de fundo dos filmes do
Almodóvar quase sempre encontramos a temática da sexualidade, A pele que habito não poderia deixar a
desejar nesse quesito. Contudo, na obra, não encontramos uma personagem que
conta suas histórias amorosas ligadas à homossexualidade – Má Educação (2004) – ou uma comédia onde todos os pilotos e
aeromoços mantém casos entre eles e causam muita confusão em voo – Os amantes passageiros (2013) –, mas um
homem que vê-se forçado, obrigado, a mudar totalmente sua sexualidade, tendo
que conviver com isso diariamente. Mais uma vez volta-se à questão do cárcere,
onde a pele que agora é habitada por Vicente, prende-o ao que ele será pelo
resto de sua vida. A representação espacial do confinamento no quarto está
diretamente ligada à nova vida de Vera.
Por: Rafael




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