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domingo, 12 de janeiro de 2014

A pele e o cárcere


Para dar o pontapé inicial ao blog, cada autor escolheu um filme que este considera como sendo o melhor dos últimos cinco anos. Tendo uma fotografia magnífica, uma filmagem fantástica e a melhor atuação de Antonio Banderas, meu filme escolhido foi A pele que habito, baseado no romance de Thierry Jonquet, Mygale (1995), ou Tarántula (2005) de 2011, dirigido por Pedro Almodóvar, rendendo a ele o “Globo de Ouro” em 2012 na categoria de “Melhor filme estrangeiro”.

Antonio Banderas e Elena Anaya
O filme se inicia com a personagem de Elena Anaya, Vera Cruz, presa a um quarto, praticando exaustivamente exercícios de yoga e recebendo sua comida por um elevador. Seu contato com o mundo exterior dá-se somente por meio de um interfone, podendo realizar seus pedidos à governanta da casa, Marília, interpretada por Marisa Paredes. O local em que fica a casa nos é apresentado como “El Cigarral”, sendo Robert Ledgard – Antonio Banderas – o dono deste lugar encantador e luxuoso. Berto é médico e acadêmico, tendo uma clínica própria no Cigarral, onde ele e sua equipe realizam cirurgias autônomas para mudança de sexo – o que é apenas mostrado no filme por meio de dicas. 


               Logo no começo da película, quando Berto está apresentando seu trabalho inovador à comunidade científica, várias críticas lhe são dirigidas, uma vez que ele está praticando experiências que envolvem transgênese em humanos – prática esta que é veementemente proibida em todo o mundo. Logo em seguida descobrimos que seus experimentos têm, por fim, criar um novo tipo de tecido humano muito mais resistente, tendo Vera como sua cobaia. A estranha relação dos dois continua a se desenrolar, sendo mostrado durante o filme que ela não se baseia somente na relação descrita anteriormente, mas também de louvor. É como se Berto apreciasse uma obra de arte, uma criação sua, nos momentos em que ele se tranca em um cômodo ao lado do quarto de Vera e ali fica a admirá-la por meio de uma tela gigantesca. 


                 No momento em que uma visita inesperada aparece, o filme começa a tomar corpo como obra artística, pois é quando o filho de Marília, fantasiado esdruxulamente de tigre para o baile de Carnaval, estupra Vera e revelações começam a tomar conta do filme. Percebe-se, aqui, a fidelidade que a governanta da casa mantém com o médico, uma vez que ela assiste de camarote à morte do próprio filho sem tomar atitude alguma para deter o ato. Ela simplesmente se livra das evidências para que a vida dos que ali vivem continue seguindo normalmente.
            Tendo a prisioneira finalmente fora de seu quarto devido às atitudes violentas que foram realizadas sobre ela, fica evidente a relação do cárcere, o fechado, o subjugado, com as revelações apresentadas. Enquanto Vera mantinha-se privada do mundo exterior, em seu quarto, o filme toma seu rumo normal e nada nos é apresentado, apenas as personagens e seus devidos papéis no filme, contudo, é quando esta entra em contato com o lado exterior que o enredo começa a mostrar-se claro ao espectador, pois é exatamente nesse momento que as mais importantes revelações do filme são apresentadas ao espectador, estas que são a chave-mestra para poder entender todo o resto do complexo enredo, principalmente, e acima de tudo, o porquê daquela mulher estar confinada em um quarto dentro da própria casa.
            É partir dessas revelações que a história entra em um segundo momento, que é quando o casal está dormindo e o motivo do cárcere começa a ser contado sob duas perspectivas totalmente diferentes: primeiramente a de Berto e depois a de Vera. Na primeira, mostra-se o pseudo-estrupro que a filha do médico sofrera seis anos antes da história narrada, ato que foi realizado pelo jovem Vicente, interpretado por Jan Cornet. Na segunda, percebemos que o viés de Berto não passa de uma ilusão criada por ele próprio, uma vez que o estupro de fato não aconteceu. Vicente apenas se assustou com os gritos dados por Norma – filha do médico – enquanto tocava a música que a garota cantava quando pequena no momento em que sua mãe se atirou pela janela, cometendo suicídio. A partir de sua fissura por vingança, o jovem é raptado por Berto e dá-se início a uma doentia busca pela imagem de sua falecida esposa.
            Neste segundo momento do filme percebemos o embasamento nas obras clássicas de ficção científica, onde um “cientista maluco” – assim chamado por críticos, inclusive, especializados em cinema e literatura – cria um monstro a seu gosto, como é o caso de Frankstein, famosa obra literária que é considerada como o primeiro romance de ficção científica, tendo várias adaptações ao cinema e aos desenhos animados. Almodóvar recria brilhantemente a imagem do “cientista maluco” das obras do século XVIII e XIX, sendo visível a construção de uma personagem com caráter egocêntrico, ambicioso e arrogante, colocando suas experiências científicas acima de qualquer Comitê de Ética, além de não poupar esforços para concluir seu projeto mais fascinante.   



 
          No filme são apresentados todos os estágios da “criação” de Berto, passando pela vaginoplastia até os tecidos modeladores que são colocados no corpo de Vicente – agora chamado de Vera – e a máscara, que provavelmente foi colocada nele devido a uma série de cirurgias plásticas no rosto. Até que, por fim, chega-se ao estágio final de sua obra: a encantadora Vera, que assemelha-se fortemente à imagem de sua mulher, observação incessantemente repetida por Marília e seu filho.
            E no corpo de fundo dos filmes do Almodóvar quase sempre encontramos a temática da sexualidade, A pele que habito não poderia deixar a desejar nesse quesito. Contudo, na obra, não encontramos uma personagem que conta suas histórias amorosas ligadas à homossexualidade – Má Educação (2004) – ou uma comédia onde todos os pilotos e aeromoços mantém casos entre eles e causam muita confusão em voo – Os amantes passageiros (2013) –, mas um homem que vê-se forçado, obrigado, a mudar totalmente sua sexualidade, tendo que conviver com isso diariamente. Mais uma vez volta-se à questão do cárcere, onde a pele que agora é habitada por Vicente, prende-o ao que ele será pelo resto de sua vida. A representação espacial do confinamento no quarto está diretamente ligada à nova vida de Vera.



Por: Rafael

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